domingo, 9 de setembro de 2007

O andarilho

Havia certa vez um andarilho com mania de palavra. Recolhia todo tipo de palavra por onde passasse e assim construía uma imensa quantidade de frases. Entretanto, com o passar do tempo e já desgastado por tantas frases repetidas, resolveu inventar seu próprio dialeto. Começou reinventando as nuvens, chamava-as algodão. Depois, arriscou um pedra para pássaro – dessa não gostou, pedra era muito planície para tantas batidas de asas. Chamou de serpente as longas estradas que percorria, de cuspe da terra a água dos rios, de cadeira de balanço os velhos, de irredutível o destino, de sol o sertão, de acaso o dia, de escuro a cegueira, de dor a fome, de queda o conselho, de secura o cansaço, de lenço o adeus, de pessoa a morte, e só o beijo de beijo.
E caminhou
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No último dia, serpenteou pelo sol à procura de qualquer cuspe da terra. Depois de vários acasos, encontrou apenas algumas cadeiras de balanço que, escuras, não sabiam lhe quedar. Estava muito seco, com imensa dor. E num último lenço, aceitando o irredutível, beijou a pessoa.

Um comentário:

Marcelo Pavão disse...

CARA!!!!!!!!VC É FODA!!!