quarta-feira, 12 de setembro de 2007
O Olhar
Olhou e pensou ter visto um abandono. Mais uma vez e percebeu que era um pássaro, solto, se esvaindo pelo céu clareza. Olhar de menina perdida, na véspera do chegar. Chão de pedras, mato verde, bambuzal dançando adeus. Pensou ter visto um carro de boi, fogão à lenha, colcha de retalhos, a mãe. Ou um imenso estender-se de retas paralelas. Olhou com esmero um esqueleto de conchas coladas. “Era um enorme amontoado de toalhas limpas, reluzentes”, disse. De longe, parecia uma árvore carregada de pontos coloridos. Depois, viu almofadas bordadas com fios de ouro. “É o desenho de um imenso dormitório estampado”, observou. Sonhou ter visto um pedaço de madeira podre, desgastada pela chuva. Olhou de novo e viu cabeças enfeitadas com pequenos poemas. Enfim, eram fotografias.
O provável fim
A menina entra. O prato cheio. O corpo vazio. A colher prateada. O cansaço do dia. A mesa quadrada. Os cabelos ensebados. O chão batido. As pernas triangulando. A parede sólida. Os braços arqueados. A panela miúda. O estômago grão. A comida caçada. A fronte curvada. A chuva densa. A face amassada. O teto puído. O peito atordoado. O quarto umedecido. Os pés descalços. O ar denso. As costas arrepiadas. A procura desesperada. A mão quietada. As folhas paralisadas. Os olhos fixos. O homem seco estendido.
domingo, 9 de setembro de 2007
O andarilho
Havia certa vez um andarilho com mania de palavra. Recolhia todo tipo de palavra por onde passasse e assim construía uma imensa quantidade de frases. Entretanto, com o passar do tempo e já desgastado por tantas frases repetidas, resolveu inventar seu próprio dialeto. Começou reinventando as nuvens, chamava-as algodão. Depois, arriscou um pedra para pássaro – dessa não gostou, pedra era muito planície para tantas batidas de asas. Chamou de serpente as longas estradas que percorria, de cuspe da terra a água dos rios, de cadeira de balanço os velhos, de irredutível o destino, de sol o sertão, de acaso o dia, de escuro a cegueira, de dor a fome, de queda o conselho, de secura o cansaço, de lenço o adeus, de pessoa a morte, e só o beijo de beijo.
E caminhou
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No último dia, serpenteou pelo sol à procura de qualquer cuspe da terra. Depois de vários acasos, encontrou apenas algumas cadeiras de balanço que, escuras, não sabiam lhe quedar. Estava muito seco, com imensa dor. E num último lenço, aceitando o irredutível, beijou a pessoa.
E caminhou
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No último dia, serpenteou pelo sol à procura de qualquer cuspe da terra. Depois de vários acasos, encontrou apenas algumas cadeiras de balanço que, escuras, não sabiam lhe quedar. Estava muito seco, com imensa dor. E num último lenço, aceitando o irredutível, beijou a pessoa.
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