domingo, 7 de junho de 2009

Eclipse

sonhei com estrelas (ou eram vagalumes?)
de vez em tal
dias acordam noite
é uma sensação notável
quando se desperta se deita
um olho fechado e o outro se abre

no deita-levanta do sim-não
o imbróglio de um solilóquio de uma multidão
no certo-incerto de um camaleão
a caça mirando seu predador
um adeus para o lenço branco
ou uma tumba de feno para o imperador

gira o giro da noite
que quando o dia veio
a lua feito foice
foi-se
e o farol do sol
em busca do outro
assolou-se

mas outro (assombrou-se)
só se encontra no chão
não em nuvens
e dias apenas o são (ou não?)
as noites invejam o dia
e dias apenas o são
certo dia a noite verá
que todas as noites
dormirão dia
e todos os dias
certo dia
noites serão

verdade é que muita gente fica na torcida
que em algum dia ou noite
finalmente noite e dia
em ambos se tornarão

e os bons dias-noites
como dois fracassados
em certo momento do instante
se consolarão

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

O Olhar

Olhou e pensou ter visto um abandono. Mais uma vez e percebeu que era um pássaro, solto, se esvaindo pelo céu clareza. Olhar de menina perdida, na véspera do chegar. Chão de pedras, mato verde, bambuzal dançando adeus. Pensou ter visto um carro de boi, fogão à lenha, colcha de retalhos, a mãe. Ou um imenso estender-se de retas paralelas. Olhou com esmero um esqueleto de conchas coladas. “Era um enorme amontoado de toalhas limpas, reluzentes”, disse. De longe, parecia uma árvore carregada de pontos coloridos. Depois, viu almofadas bordadas com fios de ouro. “É o desenho de um imenso dormitório estampado”, observou. Sonhou ter visto um pedaço de madeira podre, desgastada pela chuva. Olhou de novo e viu cabeças enfeitadas com pequenos poemas. Enfim, eram fotografias.

O provável fim

A menina entra. O prato cheio. O corpo vazio. A colher prateada. O cansaço do dia. A mesa quadrada. Os cabelos ensebados. O chão batido. As pernas triangulando. A parede sólida. Os braços arqueados. A panela miúda. O estômago grão. A comida caçada. A fronte curvada. A chuva densa. A face amassada. O teto puído. O peito atordoado. O quarto umedecido. Os pés descalços. O ar denso. As costas arrepiadas. A procura desesperada. A mão quietada. As folhas paralisadas. Os olhos fixos. O homem seco estendido.

domingo, 9 de setembro de 2007

O andarilho

Havia certa vez um andarilho com mania de palavra. Recolhia todo tipo de palavra por onde passasse e assim construía uma imensa quantidade de frases. Entretanto, com o passar do tempo e já desgastado por tantas frases repetidas, resolveu inventar seu próprio dialeto. Começou reinventando as nuvens, chamava-as algodão. Depois, arriscou um pedra para pássaro – dessa não gostou, pedra era muito planície para tantas batidas de asas. Chamou de serpente as longas estradas que percorria, de cuspe da terra a água dos rios, de cadeira de balanço os velhos, de irredutível o destino, de sol o sertão, de acaso o dia, de escuro a cegueira, de dor a fome, de queda o conselho, de secura o cansaço, de lenço o adeus, de pessoa a morte, e só o beijo de beijo.
E caminhou
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No último dia, serpenteou pelo sol à procura de qualquer cuspe da terra. Depois de vários acasos, encontrou apenas algumas cadeiras de balanço que, escuras, não sabiam lhe quedar. Estava muito seco, com imensa dor. E num último lenço, aceitando o irredutível, beijou a pessoa.